1 de Janeiro de 2010

Eu quero...



Ela traz, mesmo junto aos olhos, pequenas estrelas nascidas entre o sonho de menina e a canção de uma mulher. Uma luz que é só dela. O pezinho de veludo que marca o chão da escadaria não poupa, contudo, o seu amor, abalando-o a cada passo. O casaco comprido, rasgando o vento mansinho, esconde, discreto, a luz negra do cabelo. Ele, imóvel, observa-a a afastar-se… bela, esguia, com o mundo todo preso entre o suspiro do coração e a boca avermelhada que esconde, algures, o último sorriso de 2009 e abraça o primeiro de 2010.


Ele, vendo-a a afastar-se, chama baixinho: Hei!! Ela volta-se sobre os pezinhos de veludo, o casaco esvoaça ainda mais... as estrelas dispersam e brilham ainda mais.




Ele (sorriso discreto) - Feliz 2010, menina bonita!
Ela (escapa um sorriso) - Feliz 2010, principezinho!

(podia ter acontecido... mas não.)

29 de Dezembro de 2009

A bailarina não sabe dançar


E quando o amor
nos rouba todas as palavras?

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O que se faz?




Era uma vez uma bailarina feita de cera. Trazia no corpo vestidinhos de veludo que cobiçavam as esmeraldas que lhe calçavam os pés. Por detrás de todo o veludo e ceras, havia, contudo, um pedaço de carne que batia descompassado e agitava o sangue que a cera não deixava correr. Era de carne o coração da menina de cera. A bailarina da caixinha de música não sabia, porém, dançar. Preenchia os passos com soluços de mágoa e, quando esgotou todas as lágrimas, sentou-se a ouvir a música que não tocava mais para ela. A velha caixa ecoava sempre a mesma melodia, arranhada pelo tempo, rasgada pelo amor, roubada pela vida. A bailarina soube dar ao mundo as lágrimas que ele lhe exigia e, quando todas se esgotaram, o mundo perdeu-se dela e ela do mundo. Quando fecha os olhos, o coração da bailarina bate como quem toca a mesma melodia e ela, com os pezinhos de esmeralda, quase jura ser toda ela carne e nada cera. No sonho, parece saber dançar. Mas não sabe.

24 de Novembro de 2009

Baila-se sobre o amor inexistente

literalmente e metaforicamente:
Pequeno Príncipe,
Porque tens medo
que eu te toque?


Guardo na caixa dos segredos as promessas que ninguém construiu em tardes frias de Inverno, guardo-as na neve densa que nunca nos abraçou e com os laços que nenhum de nós atou. A bailarina dança sobre a caixa a música que tocaria se os amores modernos não dispensassem pianista e se, ao menos, o nosso amor fosse deveras amor, ainda que moderno. Guardo tudo na caixa dos segredos, todos os despistes loucos que fiz de mim mesma e que nunca foram nada senão desvios de realidade. Insensatos (diz-me tu, foram?). Há dias em que o vento arrasta as persianas inanimadas e eu juro que a vida te trará até mim, tu que eu julguei ser a solução quente para o gelo mórbido em que se tornaram os dias outrora sonhados. E os dias em que te sonho? E se eu não me libertar do colete-de-forças que é amar desmesuradamente? Entre a dor de te esquecer e a dor de não te encontrar em pensamento, eis que balanço no frio do teu nome, tão diferente de todos, tão desigual de si mesmo. Os versos que canto são belos, mas nem a beleza é capaz de me anestesiar os braços ausentes de amor. É que os vasos, princípe, quebram-se com a chuva violenta do Norte que convoca todos os ventos do Sul, sem os poupar sequer aos do Oeste e lhes acrescentar os do lado contrário. Onde fica o Leste dos amores, que eu só lhes conheço o Oeste, onde tudo acaba nas cinzas de um sol esquecido? Na caixa dos segredos, guardo também os vasos em que se transformaram os dias e neles os poemas assustados que não transcrevi e concluo num raciocínio ilógico que todos os versos principiam no teu nome. E todas as flores que não te depositei sobre o peito murcham sobre a neve que cai na nossa ausência.

1 de Novembro de 2009

Curta V - a Pergunta Final

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"Já não se encantarão os meus olhos nos teus olhos, já não se adoçará junto a ti a minha dor. Mas para onde vá levarei o teu olhar e para onde caminhes levarás a minha dor. Fui teu, foste minha. O que mais? Juntos fizemos uma curva na rota por onde o amor passou. Fui teu, foste minha. Tu serás daquele que te ame, daquele que corte na tua chácara o que semeei eu. Vou-me embora. Estou triste: mas sempre estou triste. Venho dos teus braços. Não sei para onde vou....Do teu coração me diz adeus uma criança. E eu lhe digo adeus."
Pablo Neruda

Em algum milésimo de segundo
fui (realmente) a menina dos teus olhos?

28 de Outubro de 2009

O que não se sabe - Curta IV

É mentira quando digo que
não escrevo mais canções de amor.
.
.
Escrever um texto a pensar em ti é,
por si só, uma
longa
carta
de amor.

16 de Outubro de 2009

O que não se sabe - Curta III

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"Perder-se também é um caminho."
Clarice Lispector

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Em todos os lugares te encontro e em todos eles te perco. Os corações - esses - nunca se cruzam.

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11 de Outubro de 2009

O que não se sabe - Curta II

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"Hoje
só resta uma velha canção"
Os Azeitonas, "já não te sinto em mim"
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(Hoje...)
(...) Dói mais olhar para os
teus olhos
sabendo que (já?)
não lhes pertenço.

6 de Outubro de 2009

O que não se sabe - Curta I

(vestígios de uma última carta de amor triste)



"O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este, há um virar de página e a história continua,...
..
...mas não o texto."
Fernando Pessoa


Oh, os rios de tinta
que não
correram com
a nossa história.
E as lágrimas que
correram em vez de tinta.

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5 de Outubro de 2009

O que não se sabe

Se eu p'ra ti sou uma estranha
Que o coração perdeu
É ao ver-te que eu pergunto
Se já foste como eu


Eu não sei se vais lembrar-te
De um coracao tão só
Coração tão vagabundo
Que perde, chora, todos os dias

Sara Tavares, "Tão longe do mundo"


Também dói perder
o que não se tem.

Eu devia ter dito Adeus. E eu não disse.

30 de Setembro de 2009

Entre fugas e contra-fugas


Ela sangrava amor. E fugia. E os corpos apagados nos quais ela embatia sem pedir desculpa não reparavam porque o amor não é como o sangue – não mancha a roupa. Os gritos mudos de socorro não lhe saíam da boca cada vez mais suja de amor. As pernas não eram mais pernas, eram antes pedaços de dor numa marcha desvairada pelos becos. Os olhos ferozes deixavam de o ser quando os corpos desalinhados os escondiam do mundo. O medo era, nesses dias, a força dos ventos e dos mares que ela traçava nas ruas sem que ninguém os sentisse no rosto. Porque ela sangrava amor e fugia. Coleccionava na carne os gumes dourados que escreviam canções de saudade às lâminas que o corpo consumia. E entre danças na corda bamba do medo, ela misturava-se na multidão que, quiçá, fugia também. Ao virar das esquinas, por entre os fios de cabelo negro, ela olhava para trás certificando-se de que ele não a seguia. O que ela não sabia é que ele a perseguia lá dentro, nunca cá fora.
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Foto: "Summer escape" de exoticpeach
(em breve visito todos os "cantinhos")