1 de Novembro de 2009

Curta V - a Pergunta Final

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"Já não se encantarão os meus olhos nos teus olhos, já não se adoçará junto a ti a minha dor. Mas para onde vá levarei o teu olhar e para onde caminhes levarás a minha dor. Fui teu, foste minha. O que mais? Juntos fizemos uma curva na rota por onde o amor passou. Fui teu, foste minha. Tu serás daquele que te ame, daquele que corte na tua chácara o que semeei eu. Vou-me embora. Estou triste: mas sempre estou triste. Venho dos teus braços. Não sei para onde vou....Do teu coração me diz adeus uma criança. E eu lhe digo adeus."
Pablo Neruda

Em algum milésimo de segundo
fui (realmente) a menina dos teus olhos?

28 de Outubro de 2009

O que não se sabe - Curta IV

É mentira quando digo que
não escrevo mais canções de amor.
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Escrever um texto a pensar em ti é,
por si só, uma
longa
carta
de amor.

16 de Outubro de 2009

O que não se sabe - Curta III

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"Perder-se também é um caminho."
Clarice Lispector

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Em todos os lugares te encontro e em todos eles te perco. Os corações - esses - nunca se cruzam.

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11 de Outubro de 2009

O que não se sabe - Curta II

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"Hoje
só resta uma velha canção"
Os Azeitonas, "já não te sinto em mim"
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(Hoje...)
(...) Dói mais olhar para os
teus olhos
sabendo que (já?)
não lhes pertenço.

6 de Outubro de 2009

O que não se sabe - Curta I

(vestígios de uma última carta de amor triste)



"O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este, há um virar de página e a história continua,...
..
...mas não o texto."
Fernando Pessoa


Oh, os rios de tinta
que não
correram com
a nossa história.
E as lágrimas que
correram em vez de tinta.

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5 de Outubro de 2009

O que não se sabe

Se eu p'ra ti sou uma estranha
Que o coração perdeu
É ao ver-te que eu pergunto
Se já foste como eu


Eu não sei se vais lembrar-te
De um coracao tão só
Coração tão vagabundo
Que perde, chora, todos os dias

Sara Tavares, "Tão longe do mundo"


Também dói perder
o que não se tem.

Eu devia ter dito Adeus. E eu não disse.

30 de Setembro de 2009

Entre fugas e contra-fugas


Ela sangrava amor. E fugia. E os corpos apagados nos quais ela embatia sem pedir desculpa não reparavam porque o amor não é como o sangue – não mancha a roupa. Os gritos mudos de socorro não lhe saíam da boca cada vez mais suja de amor. As pernas não eram mais pernas, eram antes pedaços de dor numa marcha desvairada pelos becos. Os olhos ferozes deixavam de o ser quando os corpos desalinhados os escondiam do mundo. O medo era, nesses dias, a força dos ventos e dos mares que ela traçava nas ruas sem que ninguém os sentisse no rosto. Porque ela sangrava amor e fugia. Coleccionava na carne os gumes dourados que escreviam canções de saudade às lâminas que o corpo consumia. E entre danças na corda bamba do medo, ela misturava-se na multidão que, quiçá, fugia também. Ao virar das esquinas, por entre os fios de cabelo negro, ela olhava para trás certificando-se de que ele não a seguia. O que ela não sabia é que ele a perseguia lá dentro, nunca cá fora.
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Foto: "Summer escape" de exoticpeach
(em breve visito todos os "cantinhos")

13 de Setembro de 2009

O que sobra do vazio

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Ela escondia segredos de luz e o coração. Trajava um vestido azul bordado a amor que a mágoa rasgava e os sonhos cosiam. O coração era isso…meia dúzia de cruzetas vazias e um vestido azul pendurado sobre uma delas. Os cabelos negros não eram nada senão esperanças que espetavam facas finas sobre as costas quando o vento soprava. Por vezes, ela pousava os sonhos, a mágoa e o medo sobre o papel onde escrevia canções de amor. Restava então o vazio. E o vestido azul a esvoaçar entre o vazio das cruzetas. Afinal, o que é o vestido azul quando o vazio leva as metáforas?
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Às vezes, escrevo demais sobre incerteza. Quem lê, diria que o amor e a mágoa impregnam as linhas, mas não – é tudo camuflagem de incerteza e medos. E depois há o vazio. Apodera-se do coração todo e não resta espaço para as palavras. O vazio chega e enforca os rumos que sonhei. Pudesse também ele enforcar as incertezas. Talvez o vazio seja leitor e talvez seja esse mesmo o problema – o leitor lê amor e mágoa e o medo não se lê senão nas entrelinhas. E depois há o teu rosto. Há os dias em que penso torturar-te até confessares. Confessar o quê se tens apenas mais vazio para me preencher? Entretanto, é a mim que me torturo a cada dia. Há uma corda no pescoço que me enforca sempre que a coragem me corre nas veias. Mas quê? O meu tempo dos segredos não se extingue, eu própria sou um segredo selado a palavras que ninguém aprendeu a ler. Talvez um dia seja eu a aprender que as entrelinhas nunca se preenchem com incertezas.

30 de Agosto de 2009

Woman in red

"E ela não passava de uma mulher...
inconstante e borboleta."
Clarice Lispector



O vermelho ardente corta a brisa abafada. A rapariga de vermelho atravessa a calçada marcada com passo firme. Leve, mas firme. Ele, inatingível, parece baleá-la com a sua seriedade desconcertante enquanto conduz no sentido contrário. Ela, quando se apercebe, deixa de sentir a firmeza sobre os passos, mas a dureza do olhar dele quase que obriga a mantê-la. Ela, a rapariga de vermelho, vulnerável na sua falsa firmeza, recusa-lhe o olhar, a ele, de carro. Num peculiar segundo - o coração preso nos lábios, o cabelo desalinhado, o vermelho da roupa estampado no corpo, os dedos dela cingidos contra não sei o quê, os dedos dele um tanto quanto sobre o volante - gera-se um abismo de olhares. Depois, os olhos dele - sempre os olhos, ela não aprende - os olhos dele que perfuram o vermelho, perfuram pele, osso e coração, os olhos dele que penetram e esmagam o mundo numa firmeza que mói e acaricia. Ele, inatingível, desconhece que cada olhar que ela, de vermelho, lhe recusa são dois beijos que ela lhe rouba. Ela mantém o passo firme sobre a rua, mas há muito que o perdera no coração.
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Foto: Scarlett Johansson

24 de Agosto de 2009

O pássaro da gaiola dourada

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"O amor?
Pássaro que põe ovos de ferro."
Guimarães Rosa
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"O pássaro é livre
na prisão do ar.
O espírito é livre
na prisão do corpo."
Carlos Drummond de Andrade
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Soubesses tu como me dói o amor sobre as asas, como as arranca e as pisa, as queima. O amor é tal e qual um enorme pássaro de fogo a queimar-me a pele, a rasgar-me a carne que me constitui o peito. Os pássaros têm alma, os pássaros oferecem coração quando cantam. E eis que eu sou um pássaro. Canto o amor que me mata e ainda grito contente como me dói o amor sobre as asas. Eis o que sou: um pássaro de ferro, fogo e lágrimas. Um pássaro pintado de cores bonitas que se afoga na tinta que cobre as suas penas. E eu, que cresci em gaiola de ouro e sonhei com flores de laranjeira, nada sou cá dentro senão um pássaro. Sabes, mesmo em gaiola de ouro, o pássaro não deixa de ser pássaro aprisionado no seu próprio sonho. Respiro ouro, mas choro água. E tu és, algures, o ar para lá da gaiola e da laranjeira. Eu estendo as asas e és tu o céu que eu quero atingir para lá das grades. Tu és céu, eu sou ave. O que acontece a uma ave quando a privam do céu?