6 de Fevereiro de 2011

Acorda, querida!

"Pai, nada podem teus olhos doces,
como nada puderam as estrelas
que me abrasam os olhos e as faces.
(...)
E na noite imensa
com as feridas de
ambos seguirei."
Pablo Neruda



Acorda, querida! Não quero acordar, mamã. Sinto as costas geladas, os olhos molhados, mas não me deixes acordar. Enquanto durmo, posso acreditar que tudo é um pesadelo. A dor não desaparece, mas sobrevive-se a ela. É tudo um pesadelo. O pai que fugiu, a mãe que chora, a avó que sofre. A dormir, sobrevive-se à vida, sobrevive-se à saudade do papá, sobrevive-se ao mundo, sobrevivo a mim. E, de repente, sei que nunca dormi. E a dor abafa-me, afoga-me. A saudade esbofeteia-me o rosto, aborda-me com o seu bafo de realidade. Afinal, o pai fugiu mesmo, a mãe chora, a avó sofre, o avô degenera. O retrato fragmentou-se, o sorriso da menina desvaneceu-se. Quando andava na escola, explorava o mundo no recreio com os meus amigos. O meu pai levava-me, o meu pai ensinava-me, o meu pai defendia-me. Tenho saudades do tempo em que o meu pai estava, era, protegia. Do tempo em que a mãe não estava doente, o pai perdido, a avó sozinha. E afundo-me na saudade. Onde está a tua mão, pai, onde está para me puxar para a superfície? E se eu me afogar mesmo, pai? E se eu não souber nadar? Pai! Simultaneamente, a minha mente é um álbum de fotografia que se desfaz em tinta nas águas. Afogo-me nas imagens. Pai! Acorda, querida! Estou acordada, bolas! Estou acordada… e tenho saudades tuas, pai. Sinto-me sozinha. Restam-me as lágrimas da mãe, da avó, do avô, as minhas. Resta-me a tua imagem. Afogo-me na saudade. Acorda, querida!

1 corações perfeitos:

Annie disse...

Que texto tão intenso..