“O que acontece quando temos algum segredo oculto do passado é que passamos cada minuto do futuro a construir um muro que torne o monstro difícil de ver. Convencemo-nos de que o muro é resistente e grosso e, um dia, quando acordamos e aquela coisa horrível não nos vem imediatamente à cabeça, damo-nos a liberdade de fingir que desapareceu de vez. O que apenas torna tudo mais doloroso quando alguma coisa destas acontece, e ficamos a saber que o muro de betão é na verdade tão transparente como o vidro, e duas vezes mais frágil.”
Uma questão de fé, Jodi Picoult

O ser humano é uma besta teimosa: sonha e exige, ama e quer ser amado na mesma proporção. O amor, no entanto, é uma besta ainda maior que o homem. O problema entre ambas as bestas é basicamente o homem não querer ser amado na metade e o amor simplesmente não estar para isso. Bichos teimosos, amor e homem. Animal estúpido, o homem… como se o amor lhe desse ouvidos simplesmente porque sonha, como se lhe desse ouvidos simplesmente porque chora. No fundo, o amor alimenta-se da condição incompleta do homem… Que raio de bicho é este, o homem, que nasce para viver incompleto e ousa pedir amor por inteiro? Poucos o conseguem. Na minha cabeça, a pequena menina pergunta “porque não ser um dos poucos?”. Não, menina, isso é o que todos dizem, todos querem, todos ousam. E, menina, é por isso que vês tantos loucos, é por isso que vês tantas lágrimas. Amor, completo, só nos filmes. Gritas que não, menina. Houve um tempo, mais perfeito, em que eu acreditei firmemente em ti. Mas o tempo levou-me à loucura e eis que me obrigo a dizer-te que tudo o que conseguiste foi exactamente um amor incompleto. Eu sei que não querias que fosse assim. Quem quer, menina? No amor, nenhum ser humano quer levar avante o projecto que um outro alguém abandonou na vida do ser amado. Mas e se for assim? E se tivermos que construir sobre o nome de uma outra pessoa? E se já não houver espaço suficiente para escrevermos o nosso nome num lugar de destaque? Sim, menina, não foi propriamente isto que imaginaste para ti, mas diz-me tu, que hei-de eu fazer? Escrevo o meu nome nas margens e espero que o nome central se apague, mas o primeiro a arder são as margens do papel, menina! Mais uma vez, que queres que eu faça se tudo o que sonhaste foi errado? Não é culpa tua. É culpa minha, menina, apenas minha, já tenho idade suficiente para deixar de acreditar. É culpa minha que sou humana, aquela besta teimosa. Porque ninguém quer o amor meio cheio, meio vazio. Ninguém gosta de ser incompleto. Ninguém gosta de ter apenas metade do amor, apenas metade do sorriso, apenas metade. Ninguém gosta de ser figurino enquanto os olhos se centram todos na personagem principal. Ninguém gosta de amor na prática sem ser amado na teoria. Culpa minha, menina, por não ser diferente da besta teimosa que é a condição humana.
0 corações perfeitos:
Enviar um comentário